29 de Agosto de 2008

De cana é melhor opção


A cana-de-açúcar é a melhor opção para se produzir etanol no mundo. A frase não foi dita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nem por qualquer outro brasileiro. A afirmação é do analista da International Energy Association (IEA), Ralph Sims. Para o especialista, que estuda os biocombustíveis há mais de 30 anos na Nova Zelândia, a cultura da cana é, de longe, a mais competitiva e ecologicamente sustentável. Ao contrário do milho, que depende de fortes subsídios nos Estados Unidos e pode impactar a produção de alimentos, da beterraba ou de qualquer outro produto agrícola.

"O grande problema é área para plantar. No caso do Brasil, há muito estoque de alimentos. O país usa só cerca de 30% de sua área plantável para os biocombustíveis, sem precisar mexer com a Amazônia", comentou Sims, ao participar ontem no Recife do I Seminário Internacional Petróleo, Gás e Fontes de Energia Alternativas. Segundo ele, a redução de áreas agricultáveis já é umarealidade. Somente a França perdeu 100 milhões de hectares por motivos climáticos nos últimos anos.

Os biocombustíveis participam com cerca de 10% da matriz energética mundial. Sims prevê que, em 2030, eles terão uma fatia de 17%. O etanol, por sua vez, ganhou as manchetes de jornais e revistas como o vilão responsável pela alta dos alimentos. "Os alimentos subiram de preço não por causa do etanol, mas por causa do aumento da demanda, da especulação no mercado internacional e das catástrofes climáticas. Também contribuiu a elevação de preços do petróleo e dos custos dos fertilizantes".

Renato Cunha, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool (Sindaçúcar-PE), lembrou que mais de 90% da frota nacional de veículos são flex fuel. "Somos muito competitivos. O preço do álcool hidratado fica em 62% em relação à gasolina, mesmo em momentos de sazonalidade. Para incrementar ainda mais esse segmento, precisamos de investimentos públicos em estoque", afirmou. O Brasil produz 27 bilhões de litros de etanol por ano. Até 2022, os Estados Unidos vão exigir uma mistura de 10% do álcool à gasolina, o que deve demandar 136 bilhões de litros/ano.

"Certamente eles não vão poder dar conta. Nem o Brasil. Então esse é um mercado muito promissor", comentou Cunha. A Petrobras, que acaba de criar uma subsidiária para os biocombustíveis, está atenta a esse potencial. Vai produzir etanol em parceria com a japonesa Mitsui, ao mesmo tempo em que procura diversificar o leque de matérias-primas. "As pesquisas para produção do etanol de segunda geração, feito de celulose, já estão bem desenvolvidas", garantiu o diretor industrial da Petrobras Biocombustível, Ricardo Castello Branco.