06 de Abril de 2008

Bahia atrai novos pólos sucroalcooleiros


De olho na grande demanda mundial pelo álcool, megainvestidores aplicarão R$8 bilhões em 20 novas usinas no estado

Alan Amaral

Nova estrela do mercado energético mundial, o etanol promete revolucionar a agroindústria canavieira na Bahia. Amparado nas projeções de expansão do plantio de cana-de-açúcar, na instalação de novas indústrias e na utilização em massa do álcool combustível (hidratado e anidro) no exterior, o segmento sucroalcooleiro baiano, hoje ainda modesto, já sonha com uma fase áurea de crescimento. Até 2013, deve desembarcar no estado um total de 20 novas usinas, projetos que irão somar cerca de R$8 bilhões em novos investimentos, além de gerar 30 mil empregos diretos. “A expectativa é atingir, nesses próximos cinco anos, uma capacidade produtiva anual da ordem de 7,2 bilhões de litros de álcool. Isso fará com que a Bahia saia da posição de importadora para exportadora do produto, pois atualmente produzimos apenas 120 milhões de litros, enquanto o consumo gira em torno de 800 milhões de litros”, revela o superintendente de políticas para o agronegócio, da Secretaria Estadual da Agricultura (Seagri), Eujácio Simões.

Entre os protagonistas dessa nova fase, está o oeste baiano, território que vem despontando como forte candidato ao mais novo pólo sucroalcooleiro do país. Segundo Simões, a região, já conhecida pela liderança na produção de grãos, será palco este ano das obras de implantação de uma usina de etanol, projeto orçado em R$500 milhões. “Em julho, a empresa Multigrain irá começar sua plantação de cana-de-açúcar no oeste. Em seguida, será iniciada a construção da sua planta industrial, que deverá entrar em operação em 2011. Somente essa fábrica irá produzir cerca de 480 milhões de litros de álcool por ano”, ressalta.

Na linha de frente desse processo, estão as ações de promoção da imagem do produto como fonte de energia limpa e renovável, seja para o anidro – utilizado na mistura com a gasolina – ou no hidratado, usado nos carros flex. No rastro dos projetos em torno do etanol, destaque ainda para as projeções de incremento no cultivo de cana, sua principal matéria-prima – cultura até então relegada no estado e ainda distante de um modelo capaz de atender a demanda local. “A Bahia tem hoje cerca de 130 mil hectares de área plantada, mas pode chegar a 870 mil hectares até 2013”, informa.

As estimativas de ampliação no plantio estão pautadas também no otimismo do produtor com o avanço no consumo do etanol e no aumento da margem de lucro. “Com certeza, os produtores serão mais bem remunerados. Por exemplo, enquanto a pecuária rende R$200 por hectare, a cana-de-açúcar rende R$500”, afirma. Entretanto, de acordo com Eujácio, esse cenário está atrelado à aposta do segmento por uma maior valorização do álcool combustível no mundo. “Hoje, o litro está sendo vendido nas usinas por R$0,75, um patamar muito baixo diante das vantagens do produto, como a não produção de gás carbônico. Esperamos, pelo menos, que esse valor dobre”, observa.

Com relação aos pontos fracos que podem ameaçar a posição do Brasil no comércio mundial do etanol, a exemplo de uma infra-estrutura logística deficiente, o superintendente acredita que isso não irá atrapalhar o desenvolvimento da agroindústria baiana. “A logística de transporte no estado ganhará o reforço da ferrovia Oeste-Leste. Aliado a isso, já existe também um projeto para a construção de um alcoolduto no extremo sul baiano. Na região do São Francisco, por exemplo, o mercado contará com a união entre o sistema hidroviário e o ferroviário, levando a produção de Juazeiro para o Porto de Aratu”, argumenta. Embora inicialmente de o-lho na busca pela auto-suficiência, o ramo sucroalcooleiro baiano já projeta um futuro de exportações, com uma produção local voltada, basicamente, ao atendimento do setor automotivo, principalmente em mercados como Estados Unidos, Japão, Coréia e China.

Novos investimentos dinamizam mercado em 2008

Na lista dos empreendimentos em curso no estado, destaque para a inauguração, nos próximos meses, de duas novas unidades produtoras de etanol, totalizando a aplicação de recursos da ordem de R$360 milhões. Localizadas no extremo sul baiano, cada nova usina terá capacidade para produzir cerca de 130 milhões de litros de álcool por ano. Entre os projetos em andamento estão as obras de construção da Ibirálcool, planta situada no município de Ibirapuã, a 844km de Salvador. Tendo como empresa controladora a inglesa Infinity Bio-Energy, a fábrica entrará em funcionamento a partir de maio e irá processar, inicialmente, um milhão de toneladas de cana-de-açúcar por ano.

“Além da Ibirálcool, teremos também em 2008 a entrada em operação da Unial, usina situada em Lajedão, cujo início das atividades está programado para setembro”, informa o secretário estadual da Indústria e Comércio, Rafael Amoedo. A previsão do governo é que nos próximos anos novas unidades sejam instaladas em cidades como Teixeira de Freitas, Itamaraju e Medeiros Neto.

Ainda no embalo da expansão do mercado local, estão as ações adotadas pelas companhias já instaladas em território baiano, a exemplo da Agrovale, agroindústria localizada na região do sub-médio São Francisco, em Juazeiro. Segundo o diretor da empresa – unidade que responde por mais de 60% do álcool produzido no estado –, Carlos Gilberto Cavalcante, a previsão do grupo é ampliar, até 2013, a área irrigada de cana de 16,130 mil hectares para cerca de 21 mil hectares. “Ou seja, vamos expandir mil hectares por ano”, afirma. O dirigente revela também que para atingir essa ampliação serão investidos cerca de R$60 milhões ao longo desses cinco anos, somente na parte agrícola. “Serão R$12 milhões por ano, sendo R$12 mil de investimento em cada hectare”, acrescenta Carlos, que também é presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool na Bahia.

Já para 2008, a usina espera atingir uma produção de 85 milhões de litros de álcool, entre hidratado e anidro – um incremento de 16% frente ao balanço do ano passado (73 milhões de litros). Única indústria na região, a Agrovale responde hoje pela geração de 4,360 mil empregos diretos, incluindo os postos gerados com a atividade açucareira.

FONTE: Correio da Bacia